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ENTRIB

Entremez do sapateiro surdo

Entremez do sapateiro surdo


Um Sapateiro
Um Velho
Um Cura
Joana
Susana, velha.
Sai o Sapateiro com os seus trastes.
SAPATEIRO
Por mais que lide e travalhe
e ande sempre rebentando,
é impossível medrar
sem ũa molher ao lado.
Hei-de falar a Susana
segunda vez neste caso,
para que diga à sobrinha
que sou bem afazendado,
bem criado, gentil-homem,
filho de pais muito honrados,
e que sou tam bem nascido
como el rei, telhas abaxo.
Mas a cousa de ser surdo
me faz dar a mil diabos,
que, a não ser tal, merecia
minha pessoa um bispado.
Ora Deos me dê boa sorte
e m’ajude no travalho,
que a Susana há-de vir logo
em busca dos seus sapatos,
e cuido que há-de trazer,
se acaso me não engano,
resolução da sobrinha
acerca deste noivado.
Assenta-se a coser. Canta.
Dizeis que me não queres
porque sou surdo.
Olhem no que repara,
não serei cornudo.
Fere-se com a sovela.
(fala)
Leve o diabo a sovela,
a torquês mais os sapatos,
porque me entrou a sovela
pelo dedo mais de um palmo.
Ora, tenho para peras!
Estou mui bem aviado,
é fermosa sovelada.
Deita tabaco no dedo. Sai Susana.
SUSANA
Deos esteja nesta casa
e me dê favor e amparo.
Senhor mestre, boas noites
lhe mande o Spírito Santo.
SAPATEIRO
Sim, senhora, não me pressiga
que ainda me falta acabá-los.
SUSANA
Você, senhor mestre, é doido.
Eu não falo nos sapatos.
Digo que mui boas noites
lhe manda o Spírito Santo.
De mais que trago a reposta,
é mui bem afortunado.
SAPATEIRO
Ta, ta, já entendo, está indisposta
pela falta dos sapatos.
SUSANA
Você não me entende a mim,
da noiva a reposta trago.
SAPATEIRO
Sim, senhora, com a sovela,
passei o dedo, té o cabo,
ate aqui, por vida sua,
se acaso traz algum trapo.
SUSANA
Atarei. O meu recado
(ata-lhe o dedo)
ao ouvido lhe direi.
SAPATEIRO
Não importa que aperte pouco,
mais vale bem apertado.
SUSANA
Eu já falei com Joana.
SAPATEIRO
Que reposta lhe tem dado?
SUSANA
Diz que dará por bem tudo
o que eu fizer neste caso,
mas, contudo, quer um moço
que seja bem estreado,
bem criado, bem nascido,
bem provido, bem bizarro,
gentil-homem na presença,
muito bem afazendado,
para que vivam contentes
ambos de dous com descanso.
Diz mais que não quer que tenha
sezão algũa ou desmancho,
e que se não for assim nisto
não tomará tal estado.
SAPATEIRO
Pois que diz essa senhora?
Que não tomará estado?
Ela sabe que sou surdo?
SUSANA
Não lhe dê isso cuidado,
cale-se, não se amofine,
que há-de ter lindo despacho,
e o que eu passar com ela
o avisarei de contado.
Fique com Deos, sobrinho.
Vá-se.
SAPATEIRO
Não mereço favor tanto.
Foi-se. Pois vou acabar
ao padre-cura os sapatos,
mas não sei se poderei
coser com este chumaço.
Sai o Cura.
CURA
Boas noites, senhor mestre.
SAPATEIRO
Sim, senhor, com eles ando.
CURA
Que tenha boas noites,
senhor mestre, é o que falo.
SAPATEIRO
Tenho tido que fazer,
por isso estão neste estado.
CURA
Eu entendo que você
é bêbado ou parvo
ou pertende burlar-me,
assim como quem quer alhos.
SAPATEIRO
Diz vossa mercê mui bem,
que foi milagre aprovado,
porque se toca no nervo
lá vai a mão c'o diabo.
CURA
Eu suponho que você
que me pertende dar chascos.
Diga-me, sô carambola,
você é surdo ou é asno?
SAPATEIRO
Sim, senhor, com a sovela,
passei a mão mais de um palmo,
mas vedou logo o sangue
porque lhe deitei tabaco.
CURA
Ora, você é capaz
de tentar um santo.
Viva Cristo que me dão
tentações de trasfegá-lo.
SAPATEIRO
Diz vossa mercê muito bem,
já vejo que está descalço,
descanse, porque os terei
pela menhã acabados.
CURA
Há quem tal possa sofrer?
Levanta-se o Sapateiro.
SAPATEIRO
Já sabe que eu caso?
Quem lhe disse esse negócio,
que ainda falta ajustá-lo?
CURA
Que desatinos são estes?
Este homem é o diabo,
haverá ou pode haver
no mundo todo tal asno?
SAPATEIRO
Lá foi a tia falar-lhe,
e se ficar ajustado,
até sete de Setembro
mandarei buscar os banhos.
CURA
Aqui temos outra loucura,
o homem está enfeitiçado.
SAPATEIRO
Sim, senhor, senhor padre-cura,
será por força de estado.
CURA
Ora, o homem é bonito,
ainda o não vi mais asno!
Fique-se com Bersebú.
SAPATEIRO
Ele o guarde muitos anos.
E se falar com Joana
ou a tia neste caso
diga-lhe que sou um moço
filho de pais muito honrados,
que venho por linha recta
de casa de Heitor, o Mago,
de Júlio César e Elias,
de Aníbal de Cartago,
do Valeroso Alexandre
e do português Veriato,
como também descendente
do grande poeta Horácio,
de Ovídio, de Platão,
de Ovídio, Cícero, de quantos
celebrou a antiguidade
com seus versos laureados,
e diga-lhe, finalmente,
que por matar Carlos Magno
aprendi a sapateiro,
por andar mais disfarçado.
CURA
Que disfarces ou que figas?!
Homem, tu deves ter o diabo,
que te não posso sofrer
embustes tão temerários,
e assim por te não ouvir
antes quero ir sem sapatos.
Vá-se.
SAPATEIRO
Apostarei que vai ele
dizer-lhe que eu sou fidalgo,
e por me não enganar
vou atrás dele escutá-lo.
Vá-se. Sai Joana.
JOANA
Triste de quem não tem pai,
que não há pior bocado,
porque não tem quem lhe sirva
de consolação e amparo.
Haverá quasi dous anos
esta dor me tem matado,
esta pena que atormenta
com este tremendo bocado,
e o que mais mal me trata
e priva do meu descanso
é querer, com muita pressa,
minha tia dar-me estado
com um homem que não vi.
Não sei se é coxo, se manco,
se corcovado ou potroso,
se simples, torto ou cobarde,
somente me diz que é rico
e que faz lindos sapatos,
mas que riqueza há-de ter
um sapateiro engraxado?
Pois se tiver ele algum
destes achaques que falo
quem há-de haver que deseje
tomar semelhante estado?
Rezão por que agora venho
a ver se acaso o topava
nesta casa para ver
se é capaz de meu agrado,
mas como sou infeliz
sempre me saiu a sorte em branco,
foi frustrada a deligência
que fazia para achá-lo,
motivo porque me vou
a minha casa chegando,
antes que em minha ausência
se possa fazer reparo.
Vá-se. Sai o Sapateiro.
SAPATEIRO
Leve Barrabás o cura,
porque tenho caminhado
mais de seis léguas e mea
sem já mais poder topá-lo,
pois eu levava os ouvidos
abertos mais de dous palmos,
que nada me escaparia
ainda que falasse baxo.
Mas já que o não topei
quero-me pôr ao trabalho
para despachar um velho
que também cá tem sapatos.
Senta-se e trabalha. Sai o velho.
VELHO
Deos guarde sua mercea.
SAPATEIRO
Aqui se vão acabando.
VELHO
Não peço agora sapatos.
SAPATEIRO
Assente-se um bocadinho,
que logo vai despachado.
VELHO
Que diz, bêbado vilão?
Parece que me dá chascos.
Peço-lhe, por vida sua,
me não fale atravessado
se não quiser que depressa
lhe faça a cabeça em quartos.
SAPATEIRO
Pois se entra por outra parte
lá vai a mão mais o braço,
olhe que ponta ela tem.
VELHO
Não teve você fortuna
entrar-lhe té o espinhaço
a sovela, viva Cristo,
surdo, louco e temerário.
SAPATEIRO
Boticário? Não, por certo,
eu me curei com tabaco.
VELHO
Senhores, melhor é
não fazer disto reparo,
que, se se o fizera, viva Deos,
que lhe tinha aberto os cascos.
SAPATEIRO
Pois diga-me, quem lhe deu
notícias deste contrato?
Quem lhe disse que eu estava
com Joana apalavrado?
VELHO
Peço pelas cinco chagas
que me dexes com tais chascos,
que depois que aqui entrei
me tens com asneiras derreado.
SAPATEIRO
Pois grã mercê me fará
se meter a mão no caso.
VELHO
Fazes-me casamenteiro
como se eu fora Pilatos,
que a troco de não ouvir-te
me irei daqui sem sapatos,
que perco a paciência
e te hei de romper os cascos.
SAPATEIRO
Bem vejo que anda descalço,
e diz vossa mercê muito bem,
e se falar com Joana
diga-lhe lá o que sou.
VELHO
Por São Paulo!
Puxa pela farrusca.
Que se não for deste modo
não poderei soportá-lo,
oh salvagem fementido!
SAPATEIRO
Oh, falso, traidor, velhaco.
VELHO
Fica assim, birbantão.
Vá-se.
Sai Susana.
SAPATEIRO
Vá-se embora, sô puxado.
SUSANA
Que fazeis? Que sobressalto
tomastes? A noiva a vesitar-vos
chega logo e aí vem.
SAPATEIRO
As rezões foram com um velho
que, por pouco, o não mato.
SUSANA
Digo que aí vem a noiva
e traz um lindo despacho.
SAPATEIRO
Isso mesmo é o que eu digo,
que é que estava borracho.
SUSANA
Digo que aí vem a noiva
para fazer o contrato.
SAPATEIRO
A noiva é? Já entendo,
pois tem algum embaraço
e sabe que eu que sou surdo?
SUSANA
A conta lhe tenho dado,
você lhe há-de dizer,
em ela aqui chegando:
«boas-noites» de ordinário,
e logo se lhe perguntar
«que fazenda tem, que anos,
de donde sois natural?»,
responda-lhe com cuidado
e diga-lhe que um bom vestido
fará para desposado.
Olhe se tem entendido
como aqui dou o recado.
SAPATEIRO
Para isso do matrimónio
tenho eu ouvido largo,
de modo que hei-de dizer
primeiramente em chegando
«boas noites» e despois
que fazenda e que anos,
de donde sou natural,
e logo como me chamo,
e que faço um bom vestido
para o dia do noivado.
E não é este todo o recado?
SUSANA
Assim é, ficai com Deos,
que eu vou-me a casa entretanto.
Vá-se.
SAPATEIRO
Verão a facilidade
com que lhe falo em entrando.
Sempre foi bom o aviso
por não errar o recado.
Sai Joana.
JOANA
Sem dúvida este é o noivo.
É muito bem estirado,
bem tirado das canelas,
seja Deos sempre louvado.
SAPATEIRO
Vossa mercê tenha as mesmas
e me viva muitos anos.
JOANA
Ainda lhe não falei
já responde adiantado,
seria equivocação.
SAPATEIRO
Isso estava eu ajustando,
pessuo um pomar de Espinho,
lá no Terreiro do Paço
um olival e ũa vinha
bem no Adro de S. Paulo,
tenho sete réis e meio
a juro de seis e guardo,
pratos terei quatro dúzias
em bom uso, mas quebrados.
JOANA
A que prepósito agora
fala nisto este fidalgo?
SAPATEIRO
Até aqui bem vai isto,
bizarramente escapo,
ela é mea inocente,
e que fora algum diabo
como havia conhecer-me
respondendo tanto a caso?
JOANA
Senhor, que homem é este?
SAPATEIRO
A isso vou. Nasci no ano
em que a fresca primavera
teve o seu princípio, em Maio,
quinze até setenta anos
tenha eu por esta conta.
JOANA
Este homem é surdo ou louco,
se vai por este caminho
desfarei todo o contrato.
SAPATEIRO
Fidalgo sou como el rei,
fui nascido no grão Cairo,
donde o solar de meu pai,
não falando nos sapatos,
é muito bem conhecido,
e morreram alguns queimados,
pervalecem hoje seus nomes
em ũa igreja estampados.
JOANA
Tenho entendido que é surdo.
Não quero já tal noivado.
SAPATEIRO
Meu nome é Brás de Paredes
Pinheiro Mendes Carvalho
e destes quatro apelidos
pessuo quatro morgados.
JOANA
Senhores, tenho entendido
que em casamento não falo.
SAPATEIRO
Juro-lhe que farei vestido,
mas que seja de retalhos.
JOANA
Há bruto, simples como este?
Este homem é insensato,
fazes de mim zombaria,
dize, louco, mentecapto?
SAPATEIRO
Esse favor vos quero pagar
com dar-vos aqui um abraço.
Abraça.
JOANA
Acuda-me, minha tia,
livre-me deste magano.
Sai Susana, falando à parte.
SUSANA
Sem dúvida tudo errou
quanto lhe havia ensinado.
(para ele)
Como está isto, sobrinho?
SAPATEIRO
Corrente como água em charco.
JOANA
Minha tia, esteja certa
que com tal home não caso.
SUSANA
Se isto é já tão público,
como quereis remediá-lo?
Saem o Cura e Velho.
CURA
Parabém sejam tais noivos
e se logrem muitos anos
e todos de tanta dita,
é certo que nos alegramos.
JOANA
Oh, que ditosa de mim!
SAPATEIRO
Que tendes, meu bem adorado?
SUSANA
Que tendes, sobrinha adorada?
Não façais nisto reparo.
VELHO
Em mil anos vos logreis
com mimo, amor e regalo.
VELHO e CURA
Parabém seja, senhora.
JOANA
Eu de tal não faço caso.
CURA
Dai a mão ao desposado
e dai-lha vós, homem, também.
JOANA
Grande bem é que alcanço
com tal marido casar!
É bem valente madraço.
CURA
Ponde-vos dessoutro lado.
Eu vos ajunto e recebo
pelo poder que em mim acho.
VELHO
Ora, já estão recebidos,
festejemos o noivado.
CURA
Eu por mim sou o primeiro.
TODOS
Vamos tangendo e bailando.
Canta o VELHO
Já que ‘tamos de baile digamos tudo.
Joana está casada com um homem surdo.
CURA (canta)
Ainda que é surdo
sempre a molher anima
e não é sapateiro de obra-prima.
JOANA
Hão-de ver grande fruto
deste noivado
já que com homem surdo
me tem casado.
SAPATEIRO (canta)
Bem sei, minha molher,
que estais casada,
bom proveito nos faça
a sovelada.
Canta SUSANA
Aqui do surdo acaba
todo o processo
e todos perdão pedem
ao congresso.